Estudo aponta queda no QI de crianças e levanta alerta sobre desenvolvimento das novas gerações
Estudo aponta queda no QI de crianças e levanta alerta sobre desenvolvimento das novas gerações
Pesquisa realizada na Turquia identificou redução nas pontuações de testes de inteligência entre 2016 e 2021. Especialistas destacam que fatores ambientais, educação e estímulos podem influenciar o desenvolvimento infantil.
O Quociente de Inteligência (QI) das gerações mais novas apresentou queda em um estudo publicado no periódico científico Journal of Theoretical Educational Science (AKUKEG). A pesquisa avaliou crianças da Turquia entre 2016 e 2021 e trouxe novamente à discussão o chamado "efeito anti-Flynn", fenômeno que representa a redução das pontuações médias em testes de inteligência ao longo do tempo.
Os resultados despertaram questionamentos sobre os fatores que podem estar influenciando o desenvolvimento cognitivo das crianças e adolescentes, incluindo mudanças no ambiente social, nas experiências de aprendizagem e nos hábitos da sociedade.
No entanto, especialistas alertam que a redução nas pontuações dos testes não significa, necessariamente, que as novas gerações estejam ficando menos inteligentes.
Teste de QI não mede toda a inteligência
O neuropediatra Vinícius Spazzapan explica que os testes de QI foram desenvolvidos originalmente para identificar crianças com dificuldades de aprendizagem e auxiliar no acompanhamento escolar.
Segundo o médico, apesar de serem ferramentas importantes, esses testes possuem limitações e não conseguem avaliar todas as capacidades humanas.
Criatividade, imaginação, habilidades motoras e outras formas de expressão intelectual não são plenamente contempladas nas avaliações tradicionais.
O especialista também destaca a importância do ambiente em que as crianças crescem, defendendo a oferta de espaços seguros, estímulos variados e oportunidades para desenvolver diferentes habilidades.
Excesso de telas e sedentarismo entram no debate
Outro ponto levantado pelo neuropediatra é a relação entre desenvolvimento cerebral, movimento corporal e convivência social.
Embora não seja possível afirmar diretamente que o excesso de telas ou o sedentarismo provoquem redução do QI, o médico alerta que a falta de atividades físicas pode prejudicar experiências importantes para o aprendizado e o autoconhecimento corporal.
Para melhorar esse cenário, Spazzapan recomenda que os pais participem mais da rotina dos filhos, incentivando brincadeiras tradicionais, leitura e atividades que estimulem a criatividade.
Ele também defende que o uso de dispositivos eletrônicos seja acompanhado pelos responsáveis, transformando o tempo de tela em uma oportunidade de interação familiar.
A criação de espaços públicos como parques, museus, praças e ambientes culturais também é apontada como importante para ampliar as experiências das crianças.
Estudo apresenta limitações, alerta Mensa Brasil
A pesquisa também recebeu ressalvas da Mensa Brasil, entidade que reúne pessoas identificadas com alto QI.
Segundo Patrícia Schneider, secretária da instituição, psicóloga, neuropsicóloga e neuropsicopedagoga, o estudo realizado na Turquia apresenta limitações metodológicas que exigem cautela na interpretação dos resultados.
A pesquisa envolveu apenas três escolas de uma mesma cidade e comparou grupos diferentes de crianças ao longo dos anos. Além disso, não apresentou análises estatísticas suficientes para permitir conclusões mais abrangentes.
A especialista ressalta que a queda nas pontuações pode estar relacionada a mudanças nas experiências escolares, na socialização e nas oportunidades de aprendizagem, especialmente durante o período da pandemia.
Para Patrícia, não é correto concluir que as crianças estejam se tornando menos inteligentes apenas com base nesses resultados.
A inteligência possui componentes genéticos, mas também depende de fatores ambientais, como educação, saúde, alimentação, estímulos cognitivos e oportunidades de desenvolvimento.
Brasil tem 7 mil pessoas identificadas com superdotação
Em junho de 2026, a Mensa Brasil divulgou que aproximadamente 7 mil brasileiros haviam sido identificados com superdotação, sendo 3,1 mil crianças e adolescentes e 3,9 mil adultos.
O número colocou o país na oitava posição mundial entre os países com maior quantidade de pessoas identificadas pela entidade.
A especialista Patrícia Schneider destaca que a superdotação não significa necessariamente tirar as melhores notas, dominar todos os assuntos ou apresentar desempenho excepcional em todas as áreas.
Também existe a chamada dupla excepcionalidade, situação em que uma pessoa com altas habilidades pode apresentar simultaneamente condições como TDAH, autismo ou transtornos específicos de aprendizagem.
Por isso, a avaliação da inteligência deve considerar diferentes características individuais, e não apenas o resultado de um teste.
O alerta dos especialistas é que o desenvolvimento infantil precisa ser observado de forma ampla. Mais do que números de testes, educação de qualidade, convivência familiar, atividades físicas, criatividade e oportunidades de aprendizagem são fundamentais para que cada criança desenvolva seu potencial.
Postado em 04/11/2026