Recuperações judiciais no agronegócio crescem 22% e acendem alerta no campo
Recuperações judiciais no agronegócio crescem 22% e acendem alerta no campo
Serasa Experian registrou 474 pedidos no primeiro trimestre de 2026; juros altos, crédito restrito e custos de produção pressionam produtores rurais
O número de pedidos de recuperação judicial no agronegócio brasileiro continua crescendo em 2026 e chama a atenção para as dificuldades financeiras enfrentadas por produtores rurais, mesmo em um setor que mantém forte capacidade produtiva.
Segundo dados da Serasa Experian, foram registrados 474 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre deste ano, cerca de 22% a mais do que no mesmo período de 2025.
Mato Grosso lidera o levantamento, com 135 solicitações.
O aumento ocorre em meio a um cenário de crédito mais seletivo, custos elevados de produção e maior endividamento. A combinação desses fatores tem comprometido o fluxo de caixa de produtores e empresas ligadas ao campo.
Juros altos e crédito restrito pesam no bolso
Entre os principais fatores que ajudam a explicar o avanço das recuperações judiciais estão os juros elevados e o encarecimento do crédito rural.
Com financiamentos mais caros, fica mais difícil para o produtor renovar operações ou renegociar dívidas. Ao mesmo tempo, bancos e outras instituições financeiras estão mais cautelosos na liberação de novos recursos.
A situação é agravada pela redução das margens de lucro. De um lado, produtores enfrentam custos elevados com fertilizantes, defensivos, sementes, combustíveis, máquinas e mão de obra. Do outro, oscilações e quedas nos preços de algumas commodities podem reduzir a receita obtida na comercialização.
Quebras de safra e eventos climáticos também têm impacto direto. Quando o produtor colhe menos do que o esperado, pode faltar dinheiro para pagar financiamentos e compromissos assumidos no início do ciclo produtivo.
Produção forte não significa dinheiro em caixa
O cenário ajuda a explicar uma aparente contradição no agronegócio brasileiro: o campo pode produzir muito e, ainda assim, enfrentar dificuldades financeiras.
Isso ocorre porque grande parte das despesas é realizada meses antes da colheita. O produtor investe no plantio, assume financiamentos e compromissos e depende do resultado da safra e dos preços no momento da comercialização para equilibrar as contas.
Quando há uma combinação de juros elevados, custos altos, preços menores e problemas climáticos, o fluxo de caixa pode ficar comprometido.
O movimento não está restrito ao agronegócio. No conjunto da economia, as recuperações judiciais cresceram cerca de 66% entre o segundo trimestre de 2023 e o segundo trimestre de 2026, em um período marcado por juros elevados e restrição ao crédito.
Recuperação judicial pode evitar encerramento da atividade
A recuperação judicial é um mecanismo previsto em lei que pode permitir a produtores e empresas economicamente viáveis reorganizarem suas dívidas e continuarem funcionando.
No entanto, recorrer ao instrumento exige planejamento. É necessário avaliar se a atividade consegue voltar a gerar caixa suficiente para cumprir as obrigações renegociadas.
No agronegócio, o plano também precisa respeitar uma característica fundamental: a sazonalidade da produção. Plantio, colheita, entressafra e comercialização ocorrem em períodos diferentes, e o cronograma de pagamento das dívidas precisa considerar essa realidade.
Renegociar antes pode ser alternativa
Antes de recorrer à recuperação judicial, especialistas recomendam uma análise detalhada de todo o endividamento para verificar se ainda existe possibilidade de renegociação direta com bancos, fornecedores e demais credores.
A avaliação antecipada também pode identificar contratos excessivamente onerosos e dívidas que apresentam maior risco de inadimplência.
O crescimento das recuperações judiciais reforça um alerta para o produtor: além de produzir, será cada vez mais necessário acompanhar de perto custos, endividamento, crédito e fluxo de caixa para atravessar períodos de menor rentabilidade e preservar a continuidade da atividade no campo.
Postado em 01/09/2026