Canetas emagrecedoras criam novo mercado para refeições prontas
Canetas emagrecedoras criam novo mercado para refeições prontas
O avanço do uso de medicamentos para emagrecimento, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, começa a provocar mudanças também no mercado de alimentação. Empresas e pequenos negócios estão apostando em marmitas menores, ricas em proteínas e com cardápios voltados à alimentação saudável para atender um público que ganhou força com a popularização das chamadas “canetas emagrecedoras”.
Nas redes sociais, já são encontrados os chamados “kits de marmitas Mounjaro”, geralmente com porções de até 250 gramas e maior quantidade de proteínas. A tendência acompanha uma mudança no comportamento dos consumidores, que passaram a buscar refeições menores e com composição nutricional mais controlada.
A explicação está relacionada aos efeitos dos medicamentos da classe GLP-1, que, entre outros mecanismos, reduzem o apetite. Com isso, parte dos usuários passa a consumir porções menores e demonstra maior preocupação com a qualidade nutricional dos alimentos.
Empresas registram aumento da procura
Na Liv Up, especializada em refeições congeladas, as linhas direcionadas ao emagrecimento e à performance esportiva vêm crescendo acima da média dos demais produtos da companhia.
Segundo o CEO e cofundador da empresa, Victor Santos, há cerca de um ano aproximadamente 5% dos clientes declaravam já ter utilizado medicamentos GLP-1. O percentual passou para 7,5% em dezembro e chegou a 10% em junho.
As linhas de emagrecimento e performance devem caminhar para cerca de R$ 150 milhões em vendas no segundo ano de operação, segundo a empresa. No comparativo entre 2025 e 2026, esses segmentos já dobraram de tamanho.
A procura acima das expectativas levou a companhia a reforçar sua estrutura de produção.
Mercado de congelados também cresce
O movimento ocorre em um cenário de expansão do setor de alimentos congelados no Brasil. Dados do grupo de pesquisas Imarc apontam que o segmento movimentou aproximadamente US$ 5,9 bilhões em 2025, cerca de R$ 30,3 bilhões, e poderá alcançar US$ 7,8 bilhões, aproximadamente R$ 40,1 bilhões, até 2034.
Os aplicativos de entrega também registram reflexos dessa tendência. Segundo levantamento do iFood citado pela reportagem, os pedidos de marmitas congeladas aumentaram 13% no primeiro semestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano passado.
Em alguns estados, o avanço foi ainda maior. O Ceará registrou crescimento de 136%, seguido pelo Espírito Santo, com 81%. São Paulo apresentou alta de 24%, enquanto Rio de Janeiro, Goiás e Santa Catarina também ficaram acima da média nacional.
Menos comida e mais proteína
Outra empresa que decidiu aproveitar a mudança de comportamento foi a Vapza, conhecida pelos alimentos cozidos e embalados a vácuo. A companhia entrou no segmento de refeições prontas e passou a oferecer opções como feijoada, estrogonofe, canja de galinha e lentilha com bacon.
Além de reduzir algumas porções, a empresa passou a dar maior destaque nos rótulos à quantidade de proteína presente em cada prato.
Segundo o CEO da Vapza, Enrico Milani, a tendência é que consumidores que utilizam medicamentos para emagrecimento não necessariamente deixem de comprar alimentos, mas passem a consumir quantidades menores e produtos considerados de melhor qualidade nutricional.
A companhia afirma registrar crescimento de aproximadamente 15% no faturamento e 12% no volume de vendas neste ano, com contribuição da nova linha de refeições prontas.
A Seara, da JBS, também entrou nesse mercado com uma nova linha de refeições prontas baseada no conceito de rótulos mais simples, com ingredientes facilmente identificáveis pelo consumidor.
Mudança pode beneficiar indústria de proteínas
A transformação dos hábitos alimentares provocada pela expansão dos medicamentos GLP-1 também está sendo acompanhada pelo mercado financeiro.
Análise da XP aponta que empresas ligadas à produção de proteínas podem estar entre as beneficiadas pela tendência, uma vez que usuários desses medicamentos tendem a priorizar alimentos ricos em proteínas e demonstrar maior disposição para pagar por produtos considerados de melhor qualidade.
Em contrapartida, segmentos mais dependentes da venda de bebidas alcoólicas, produtos açucarados e alimentos ultraprocessados podem enfrentar impactos negativos caso a utilização desses medicamentos continue avançando.
Com a popularização das canetas emagrecedoras, o mercado de alimentos começa, portanto, a se adaptar a um consumidor que come menos, mas presta mais atenção à composição nutricional do que coloca no prato.
Postado em 24/08/2026